A Terceira Rosa – Manuel Alegre (Entrevista)

“A Terceira Rosa”, onde conta a história de uma paixão, entre Xavier e Cláudia, e um romance onde é possível entrever o próprio escritor. Alegre escreveu-o como pensa que a vida se nos oferece: em pequenos momentos, em fragmentos de eternidade, sabendo que há coisas que não podem ser escritas, ou, como diz, “inundadas pela prosa”. E a poesia? “A poesia, como a matemática e a física quântica, apanha tudo.”
PÚBLICO – No fim do fragmento inicial do romance, lê-se: “E a terra começou a tremer.” Verdadeiramente, quando é que isso aconteceu?
MANUEL ALEGRE – “A Terceira Rosa” parte de uma vivência, como é óbvio, mas é uma recriação literária. A terra começou a tremer, em sentido real e metafórico, desde que tenho consciência de mim. É uma coisa que se dá na infância, sem a consciência do que é, e que depois, na adolescência, se transforma numa paixão. Estou a falar na mulher do livro…
Já não se sente tão irritado quando, em 1999, lhe perguntaram se a Cláudia sempre existiu?
Há um Xavier e uma Cláudia em todos nós. E há sempre uma paixão primeira. Mas, ao mesmo tempo, há uma transfiguração que tem que ver com toda uma tradição do amor ocidental: do amor cortês, das minhas próprias leituras do romance de cavalaria, do “Cavaleiro Andante”, dos romances de Walter Scott, do Santo Graal, enfim, de “A Menina e Moça”, do Bernardim Ribeiro, que aparece no livro muito explicitamente… para dizer algo que é arrepiante mas, quem tenha passado pela sensação da terra a tremer, sabe quanto é cruelmente verdade: “A paixão não repousa em outra paixão.” Dito de outra maneira: a paixão pela Cláudia concreta permanece ainda, “passa e não passa”, como diz o pai de Xavier?
Todo o amor só dura aquilo que se perde. Há a Cláudia real e a Cláudia inventada – eu não sei qual é a mais verdadeira! Mas uma e outra talvez personifiquem o amor. No fundo, ama-se o amor, a paixão. Pode amar-se uma pessoa concreta. Mas o problema do abstrato é quando o real se transforma nessa abstração, no amor do amor.
E a morte de Cláudia também foi real-real ou é uma ficção?
É real e não é real! É real na medida em que há um momento em que há um corte, que é um momento de morte, como há muitas formas de ressurreição.
O Manuel Alegre de “A Terceira Rosa” é mais ficcional, e menos confessional do que em “Alma”. Mas está a narrar algo de mais intimista.
Talvez seja uma ocultação. Mais: talvez seja impossível uma escrita sem essa ocultação. Nem gosto do tom confessional, e acho que foram muito poucos os escritores que acertaram quando foram por esse caminho. Talvez Rilke tenha acertado quando escreveu “Cadernos de Laurids Brigge”.
Formalmente, o livro é muito depurado. Quem é quem dentro e fora dos parêntesis?
É uma espécie de jogo. Inclusive a introdução do Manuel Alegre-ele-próprio no romance. Nos parêntesis há mais o eu-próprio-o-outro, a lembrar o que disse Mário de Sá-Carneiro, o Xavier, e fora deles há mais a narrativa. É um jogo entre, se quisermos, ocultação e desocultação.
Esse processo gráfico-formal como é que surgiu?
Começou por aparecer no “Jornada de África”. Acho que tem que ver com a poesia e com o cinema. A escrita vive de breves instantes como a vida, são breves instantes de eternidade. Quando fazemos o balanço das nossas vidas, o que temos são pedaços desses breves instantes – que têm que ver com a morte, com amizade, com um poema, com um quadro que se vê, um fim de tarde. A escrita, como a vida, é feita de fragmentos. Talvez não seja um romancista, ou não sei bem o que é hoje ser romancista, e não vejo que se possa fazer uma narrativa hoje que não seja através da colagem ou da montagem desses fragmentos.
É uma cedência ou um condicionamento da nossa pós-modernidade?
Não tem que ver com a pós-modernidade! Para mim, tem mais que ver com a dificuldade em definir as fronteiras entre poesia e prosa. Vejo o romance, como inundação da prosa, como poesia – através de uma escrita não rimada, mas ritmada – e até como ensaio. Se formos a ver nos romances antigos de Tolstoi, Thomas Mann ou Flaubert, há um pouco de tudo isso.
Mas hoje, em que o tempo, de repente, mudou de velocidade com as novas tecnologias, com a Internet a ficção e a poesia. Não conseguem apanhar tudo, é isso? Por isso a escrita só pode captar a fragmentação?

A poesia, como a matemática e a física quântica, apanha tudo. Mas acho difícil uma prosa que não integre a poesia, o ensaio, o cinema e esta nova escrita da cibernética, das mensagens dos telemóveis. A fragmentação vai acentuar-se. Acho que António Lobo Antunes apanhou bem isso, por exemplo, em “O Esplendor de Portugal”, que reli há pouco tempo. Do ponto de vista da escrita, correndo o risco de perder o fio à meada, ele percebeu a fragmentação da linguagem, dos tempos, em que há uma espécie de orquestração da própria prosa.
Não lhe ocorreu a escrita de Maria Gabriela Llansol?
Ela faz uma espécie de intersecionismo da prosa, como encontramos em “As Ondas”, de Virginia Wolf, que é provavelmente um dos mais modernos e um dos mais fantásticos livros que li. Talvez o romance vá para aí, ou para uma estrutura narrativa de um Paul Auster. O que para mim é difícil é separar as fronteiras entre prosa e poesia.
Por que razão chegou à prosa tão tardiamente?
A própria vida que tive e a necessidade de ter algum distanciamento em relação à intensidade com que me embrenhei nas coisas. É difícil passar as coisas para a prosa, quando se tem uma vida muito intensa, muito povoada de acontecimentos, viagens, sítios.
Também por isso, “A Terceira Rosa” está carregado de uma enorme vertente poética. A certa altura o narrador diz: “O que sei, mas isso outros o dirão muito melhor, é que a paixão é uma festa e um veneno, rosa e cicuta, rima com puta, agora sim, palavra certa para tanto fogo e tanta mágoa.” É um poema… Mas a história da paixão por Cláudia não passou, formalmente, por um livro de poemas. Porquê?
Não sei explicar isso! Nunca tive uma grande paciência para a prosa burocrática, sentarme à mesa, escrever das tantas às tantas. A escrita, para mim, vem como uma toada, como um ritmo. Ultimamente isso tem-me acontecido mais com este tipo de escrita em que me envolvi com “A Terceira Rosa”.
Tem alguma explicação para isso?
[Enquanto se deixa cair para trás no “maple”, há um silêncio. Longo]. Esse estado de graça irrepetível tem que ver com circunstâncias irrepetíveis… Como ir ao outro lado e vir. Não se vai lá muitas vezes. Ou melhor: não se volta assim muitas [risos]. Mas essa questão já me deu muitas vezes que pensar… O chamado estado de graça, ou estado do poema, é dificilmente repetível, e estou hoje muito menos disponível. Ou o poema acontece e se me impõe. Ou então dá-se na prosa. É engraçado, porque Pessoa valoriza a prosa em detrimento da poesia, num texto que é fundamental, mas que não tenho presente, o que é o contrário do que acontece com a maioria dos escritores.
Em diversas entrevistas que deu, quer se fale da arte poética, quer da de escrever, disse que é a arte de perguntar – quando é sabido, como o narrador numa certa passagem diz, “nem toda a vida passa para a escrita”. Perguntar o quê?
Perguntar o que é o sentido da vida, todas aquelas coisas que são velhas e que acabam por ser novas. Claro que há perguntas sem resposta: eu não digo que sou ateu. Deus ou não-Deus? Ninguém saberá nunca responder. Ou se acredita ou não se acredita, e no plano da fé, não se discute. A pergunta é se isto faz sentido ou que é que andamos aqui a fazer. E a arte é isso: é uma pergunta que incessantemente se repete. É tentar dizer o indizível. É como o amor – é difícil de dizer, e não sei se o consegui em “A Terceira Rosa”.
Como é que se pode compreender, sobretudo depois da experiência de “Senhora das Tempestades”, o que disse ao PÚBLICO, em 1999: “Tenho a sensação que começo agora a escrever.”
Tive a vaga sensação, desde “Senhora das Tempestades”, porventura depois da experiência por que passei, que tinha a urgência de dizer o que até agora não tinha dito. Talvez porque passei a ter um outro olhar sobre a vida, talvez porque me tenha dado conta de que me tinha embrulhado de mais na vida política e tinha que me distanciar das coisas para começar a escrever. Ou a voltar ao período de “O Canto e as Armas” ou de “A Praça da Canção”, em que escrever era uma espécie de exaltação.

Recolha de Raquel Pereira, 10ºE

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